Na Praça 25 de Abril, em Torres
Vedras, há uma clínica muito especial. Cerca de 17 médicos dentistas
das mais diversas especialidades abdicam dos tempos livres e de horas
de trabalho lucrativas para ajudar quem mais precisa.
Uns regressam apressados das aulas de mestrado em Barcelona, partindo
de seguida para as cirurgias nos Açores; outros apertam a agenda que
circula entre as diversas clínicas da capital e da região; a maioria
abdica do tempo com a família; mas todos conseguem encontrar “um furo”
no calendário para oferecer uma manhã de trabalho no nº 12 com vista
para o Jardim da Graça.
A maioria já no topo da carreira, outros a dar os primeiros passos na
profissão, os dentistas da clínica solidária acabam por ser uns
voluntários sui generis. Oferecem a dispendiosa arte e conhecimentos
adquiridos em anos de estudo e trabalho, a quem nunca teve
possibilidade de a eles poder recorrer por falta de meios.
“Este projecto surgiu por verificarmos que grande parte da população
não tinha acesso ao dentista por as consultas serem muito dispendiosas
e que era absolutamente necessário do ponto de vista social fazer esta
acção”, relata um dos médicos fundadores que prefere manter o
anonimato, visto que este é um projecto em que todos recusam
protagonismo.
A vinheta pessoal serve apenas em benefício da clínica, para a qual vão
conseguindo convencer as distribuidoras do sector a aderir ao projecto.
“As marcas já nos conhecem e chegam inclusive a enviar-nos materiais de
ponta para podermos testar”, explica a mesma fonte. O mais recente é um
programa informático de gestão dentária oferecido por uma empresa do
norte do país, com as últimas actualizações em radiografia digital.
As restantes despesas, tais como as cadeiras, os equipamentos de
esterilização e o vencimento da única funcionária são assegurados pelas
verbas da Associação de Beneficência e Solidariedade para a Saúde Oral
Torreense (ASOT), a entidade que suporta juridicamente a clínica.
Os fundos da associação resultam do pagamento das consultas que,
independentemente dos tratamentos efectuados, custam aos utentes apenas
15 euros. A rigorosa gestão das verbas permitiu que, hoje, seis anos
após a entrada em funcionamento, a ASOT possua equipamento que muitas
clínicas privadas gostariam de ter.
Entrevista antecede consulta no dentista
Graças também a uma eficiente gestão do tempo dos dentistas
voluntários, a clínica ASOT está aberta todas as manhãs de segunda a
sexta-feira. Podem usufruir dos seus serviços todos aqueles que,
mediante prova, se enquadrem no estatuto de carenciado definido pela
associação.
Para isso, os candidatos são submetidos a uma entrevista com uma
assistente social que trabalha também em regime de voluntariado. Além
dos documentos de identificação pessoal, têm de fazer-se acompanhar por
documentos comprovativos como a declaração de IRS, último recibo de
vencimento, entre outros. Os processos são reavaliados de dois em dois
anos.
A clínica conta actualmente com 1.339 inscritos, tendo realizado de Fevereiro de 2004 a Dezembro de 2009, 8.080 consultas.
Além dos pacientes que chegam a título individual, a ASOT possui ainda
protocolos de colaboração com diversas instituições particulares de
solidariedade social de Torres Vedras, Lourinhã, Mafra, Abrigada,
agrupamentos de escolas do concelho, centro de saúde, centro social
paroquial, associações de socorros, lares, centros de dia, entre outros.
Os pacientes da ASOT podem ter acesso a praticamente todo o tipo de
tratamentos na área da medicina dentária (cirurgia, endodontia,
restauração, destartarização, selantes, ortodôncia, próteses, entre
outras) com excepção de implantes, próteses fixas e ortodôncia estética.
O segredo da ASOT
Na clínica de solidariedade “juntam-se duas forças muito importantes”,
sintetiza o médico. “Primeiro, a vontade de trabalhar para os outros;
segundo, ser uma casa muito bem gerida, que permite que funcione como
uma empresa completamente saneada financeiramente.”
A ASOT foi fundada a 14 de Dezembro de 2002, tendo começado a funcionar
inicialmente numa sala cedida pela paróquia da Silveira. Em 2004, a
Câmara Municipal de Torres Vedras cede uma sala à associação em pleno
centro da cidade, trazendo um novo impulso ao trabalho dos dentistas
voluntários.
A nova sede foi inaugurada a 9 de Fevereiro, uma data escolhida
propositadamente pelos voluntários católicos. Por ser dia de Santa
Apolónia, a mártir a quem lhe terão sido arrancados os dentes à força
por se recusar a renegar Cristo. Santa Apolónia transformou-se na
padroeira dos dentistas e a vigilante deste grupo de voluntários que,
de há seis anos a esta parte, anestesia dores e alivia muitas carteiras.