De onde viemos e quem somos, são
questões que acompanham o Homem desde sempre. E é precisamente saber
desde quando existe o Homem a questão que a Ciência teima em resolver.
O estudo da genética que permite estabelecer com cada vez maiores
certezas a árvore genealógica da humanidade pode ser o caminho para
que, dentro de poucas décadas, se chegue à Eva original.
Sim à Eva, porque o ADN feminino “é mais estável e fácil de estudar do
que o masculino”, salvaguarda Filipa M. Ribeiro, co-autora do livro “A
História Humana Preservada nos Genes. O Património Genético Português”,
que os torrienses que se deslocaram, no sábado, ao auditório da Junta
da Freguesia de Santa Maria ficaram a conhecer.
“A genética vem contribuir com alguns conceitos importantes na teoria
da evolução”, mas ainda subsistem muitos pontos controversos acerca do
modo como os primatas evoluíram até ao Homo Sapiens, sublinhou a
oradora na conferência a que deu o nome de “Genética, Comunicação e
Evolução Humana – Uma história de Amor”.
Filipa Ribeiro deslocou-se a Torres Vedras a convite da ALT – Sociedade
de História Natural, não tanto para fornecer respostas científicas, mas
para deixar pistas de reflexão sobre a forma como o conhecimento
científico tem sido comunicado a não especialistas.
A obra que escreveu em co-autoria com Luísa Pereira, onde é retratado o
Património Genético Português é, aliás, “pioneira” não só no tema como
no modo em que é transmitido: “É um livro dedicado ao grande público”,
sintetizou Bruno Silva, da ALT. É apresentado intencionalmente de forma
descodificada e apelativa, aliando os conhecimentos científicos de
Luísa Pereira, ao novo modelo de comunicação científica defendido por
Filipa Ribeiro.
“O modelo de comunicação mais habitual é o da transferência, em que de
um lado há os cientistas, do outro o público e no meio os media que
muitas vezes funcionam como cabeças de microfone”, constata a
especialista. Os conhecimentos são transmitidos numa base generalista
deixando por explicar muitas das lacunas que apresentam, critica.
A Teoria da Evolução de Darwin é um dos exemplos apontados por Filipa
Ribeiro. “Há uma série de questões para as quais ainda não há resposta.
A teoria não explica o surgimento da vida, os primeiros organismos
unicelulares, o código genético, etc”. Filipa Ribeiro considera que “a
Teoria de Darwin, em conjunto com outras teorias da ciência,
constituíram uma espécie de cobertor da razão que tem dominado o
pensamento ocidental nos últimos 150 anos”. A ciência “foi elevada a um
nível puramente materialista que nos tem dominado de tal forma que nos
faz ignorar todos os buracos que estão por tapar”.
Daí, defende a oradora, “a mudança de paradigma da história da ciência
só se consegue quando as descobertas científicas são comunicadas de
forma eficaz para o público”, através de uma comunicação “mais
articulada que consiga transformar entidades em valores, que não se
limite à explicação operacional das coisas, que nos suscite emoções e
permita a construção de um conhecimento e progresso intelectual”.