Torres Vedras vai ter um complexo integrado de saúde, com características únicas no país, cuja construção pode já ser observada na zona da encosta do Varatojo.
O futuro Campus Neurológico Sénior
(CNS) terá uma vocação relacionada com doenças neurológicas
degenerativas, nomeadamente as doenças de Parkinson e de Alzheimer, e
uma unidade de reabilitação que será também dedicada a vítimas de
acidentes vasculares cerebrais. Deverá estar concluído no primeiro
semestre de 2012 e terá vários módulos funcionais.
Um deles é o CNS Clínica Médica, com consultas na área da neurologia.
Depois há a parte do internamento, com capacidade para 80 camas: o CNS
Unidade Residencial de curta ou longa duração e o CNS Residência
Sénior, com apartamentos, para pessoas que ainda estão autónomas mas
que sentem necessidade de estar perto de uma estrutura de apoio. Ou
ficam algum tempo enquanto fazem a reabilitação ou a fisioterapia ou
até para dar “férias” aos cuidadores, porque acontece às vezes às
famílias precisarem de descansar dessa tarefa desgastante.
De acordo com os promotores do projecto, os torrienses João Miguel
Ferreira e o neurologista Joaquim Ferreira, médico no Hospital de Santa
Maria, professor universitário na Faculdade de Medicina de Lisboa e
investigador nesta área, mais concretamente a doença de Parkinson, o
investimento surge porque “a prevalência destas doenças vai aumentar
pelo facto da população estar a envelhecer e porque há uma grande
lacuna em termos de formação por parte de quem dá apoio a esses
doentes”. A culpa dessa ausência de formação não é atribuída aos
profissionais, o problema é que eles têm muita dificuldade em encontrar
ofertas de formação.
Daí que esta nova unidade em Torres Vedras também esteja vocacionada
para formar quem trabalha com idosos e doentes do foro neurológico.
“Para além de prestarmos os cuidados de saúde, achamos que é importante
assumirmos as nossas responsabilidades com um programa de formação
continuado, usar a estrutura que estamos a criar para formar as
pessoas, sejam médicos, enfermeiros, auxiliares de acção médica,
cuidadores ou familiares”, explica o dr. Joaquim Ferreira. Considera
ainda muito importante esta vertente da formação, na medida em que
poderá ter um efeito multiplicador de contribuição para a qualificação
dos profissionais de saúde que dão apoio nas mais variadas
instituições. “Desde os médicos aos funcionários administrativos, há
uma enorme necessidade de formação adicional neste tipo de doenças, que
são aquelas que vão ter um grande peso do ponto de vista dos indivíduos
que estão internados, porque nós vivemos mais tempo, o número desses
doentes vai aumentar e esses profissionais têm de ser treinados”,
referiu.
Outra valência importante da nova unidade é a investigação. Por um lado
porque Joaquim Ferreira vai trazer parte das actividades de
investigação que desenvolve noutras entidades. Por outro lado, estão
previstas parcerias, como por exemplo com a Universidade Católica e o
seu Instituto de Ciências da Saúde e a Escola de Enfermagem. Da mesma
forma com os promotores de estudos em curso, como os laboratórios da
indústria farmacêutica ou outras instituições, inclusivamente “nos
estudos que eu estou a conduzir temos parcerias com universidades
estrangeiras e portanto a ideia mesmo é que elas sejam estabelecidas”,
explicou.
A unidade terá um custo que rondará os 10 milhões de euros, foi
projectada e pensada ao pormenor para o fim a que se destina e vai
criar entre 30 a 50 novos empregos fixos. Nesta fase, porém, os
torrienses questionam-se sobre a obra que vêem nascer na encosta do
Varatojo e especulam sobre o seu destino. “É importante as pessoas
perceberem o que está ali a nascer, porque há uma curiosidade natural e
porque o edifício está num local que é visível da cidade e não passa
despercebido”, admitem Joaquim Ferreira e João Miguel Ferreira. Daí
também a necessidade de haver uma explicação pública sobre o projecto
em curso. “Não é uma clínica nem um hospital, porque não tem exames
complementares, não tem cirurgias, nem tem urgência. Não é a repetição
de uma coisa que não fazia sentido repetir. Primeiro não é a nossa área
e depois seria um erro estratégico fazer coisas que outros já fazem
bem”, esclarecem.
É algo que em Portugal não existe e que na Europa também não abunda. E
porquê em Torres Vedras? Em primeiro lugar por motivos afectivos, já
que os promotores são torrienses e faziam questão que fosse implantado
na sua terra. Mas também pela proximidade de Lisboa e porque em Torres
Vedras já existem boas estruturas de apoio no que diz respeito ao
hospital e a clínicas.
Mas mesmo assim a instituição podia ter ido para outra localidade,
nomeadamente Oeiras, mas “do ponto de vista local houve uma boa reacção
à nossa proposta, sobretudo por parte do presidente da Câmara
Municipal, que foi das pessoas que mais rapidamente percebeu que isto
era uma coisa que valia a pena ser apoiada”.
Na realidade é uma estrutura que estará em Torres Vedras mas com âmbito
nacional e muito provavelmente internacional, “porque com esta vocação
e coordenado por médicos que têm credibilidade externa”.
Previstos estão ainda protocolos com subsistemas de saúde. Com o
Serviço Nacional de Saúde também vão ser procurados. “A nossa intenção
é essa, mas depois depende da vontade do Estado e também se está
interessado em utilizar estas instalações para fazer formação dos seus
profissionais”, concluiram.